Colégio de Presidentes discute gestão de crise, acessibilidade e fiscalização por IA

Brasília, 29 de outubro de 2026

Na abertura da 5ª Reunião Ordinária do Colégio de Presidentes de 2026, na manhã desta quinta-feira (29/10) em Florianópolis, o presidente do Crea-SC, Kita Xavier, destacou a concessão do primeiro Selo de Conformidade ao curso de Engenharia Florestal da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), no campus de Curitibanos. A entrega marca uma nova etapa do programa, que busca ampliar a regularidade cadastral dos cursos e fortalecer a aproximação entre os Conselhos e as instituições de ensino.

O Selo de Conformidade reconhece individualmente cursos de graduação e pós-graduação que atendem aos requisitos cadastrais e normativos do Sistema Confea/Crea e mantêm relacionamento institucional com o Conselho. A iniciativa busca manter atualizadas as informações curriculares, incentivar a inclusão de conteúdos como ética profissional e legislação e ampliar a participação das instituições de ensino nas ações do Sistema.

Anfitrião do 5ª CP, presidente do Crea-SC, Kita Xavier

Com base na Resolução nº 1.073/2016 do Confea, o programa não avalia a qualidade pedagógica dos cursos, mas verifica sua conformidade com as exigências legais e cadastrais. A iniciativa também prevê a concessão do Selo Ouro às instituições que mantêm 100% de seus cursos regulares em conformidade.

Na sequência, o reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Amir Martins, que é engenheiro mecânico, destacou os desafios da formação em Engenharia e a importância da integração entre as instituições de ensino e o Sistema Confea/Crea. Segundo ele, essa parceria se fortalece por meio de iniciativas como o Crea Júnior e da introdução do Selo de Conformidade, que busca aproximar ainda mais os Creas das instituições de ensino e contribuir para a formação dos futuros engenheiros.

Reitor da UFSC, Amir Martins

Martins também ressaltou a importância de compreender os impactos da inteligência artificial (IA) na formação profissional, considerando tanto os desafios quanto às oportunidades oferecidas pela ferramenta. Nesse contexto, destacou a necessidade de conectar o conhecimento acadêmico às aplicações práticas e reconheceu o Crea como um parceiro estratégico nesse processo.

Acessibilidade ganha proposta de programa nacional

Fora da pauta prevista, o tema da acessibilidade tomou parte da tarde. O engenheiro civil Daniel Faganello, consultor em acessibilidade e representante do Confea no Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, cobrou mais protagonismo da engenharia. Segundo ele, os Termos de Ajuste de Conduta (TACs) firmados pelo Ministério Público chegam para execução com prazos curtos demais. “A engenharia está entrando sempre por último, quando na verdade deveria estar participando da discussão”, afirmou.

 Daniel Faganello, consultor em acessibilidade

“Nós temos 12 estados e o Distrito Federal que não possuem comissões de acessibilidade”, disse Faganello. Ele também apresentou o grupo de discussão da NBR 9050, com 33 profissionais de 20 Creas. Sete Creas ainda não indicaram representantes.

O presidente do Crea-MA, Wesley Assis, defendeu uma instância nacional. “Acho que está mais do que na hora de a gente ter uma Câmara Nacional de Acessibilidade, com as respectivas Câmaras Regionais”, afirmou. Outros presidentes apoiaram a ideia e propuseram ações conjuntas, como a inclusão de arquitetos nos grupos de trabalho e atenção às calçadas.

Wesley Assis, Crea-MA
Wesley Assis, presidente do Crea-MA

O colaborador do Confea Renato Lisboa, assessor do CP, sugeriu outro formato: “Em vez de criar um comitê ou uma comissão, cria-se um programa”, disse. Segundo ele, as comissões temáticas têm prazo de validade. Já um programa, nos moldes do Programa Mulher, permanece “enquanto houver interesse do Sistema”. A proposta será elaborada com a equipe do Confea e levada à votação na próxima reunião do Colégio de Presidentes, em novembro, em Maceió (AL).

Crea-GO apresenta fiscalização de notas fiscais com IA

Lamartine, presidente Crea-GO
Presidente do Crea-GO, Lamartine Moreira

O presidente do Crea-GO, Lamartine Moreira, e o gerente de TI, Marcelo Gomes, apresentaram uma plataforma que usa BI e IA para cruzar notas fiscais de serviços de engenharia com os dados de registro, ART e fiscalização do Conselho. As notas vêm de um convênio com a Prefeitura de Goiânia.

Marcelo, TI, GO
Gerente de TI do Crea-GO, Marcelo Gomes

O sistema atribui pontuação a cada caso e monta uma fila de prioridade para os fiscais. “Empresa sem registro tem um peso de 70 pontos”, explicou Gomes. A IA lê a descrição das notas, classifica o serviço e indica a irregularidade. O fiscal pode gerar o relatório de fiscalização a partir da própria plataforma. “Esse projeto foi iniciado em novembro do ano passado”, disse o gerente.

Segundo Gomes, a ferramenta usa software livre e foi desenvolvida pela equipe do próprio Crea. Lamartine afirmou que o sistema está à disposição dos demais Creas: “Vocês têm a disponibilização para poder implementar a hora que quiserem, e de graça”.

Miguel Alvarenga, Crea-RJ
Presidente do Crea-RJ, Miguel Alvarenga

O presidente do Crea-RJ, Miguel Alvarenga, parabenizou a iniciativa e levantou a questão da segurança dos dados. “É o problema que nenhum de nós quer ter: um ataque que vaza e depois vem um processo em cima da gente”, afirmou. Marcelo Gomes respondeu que o sistema registra tudo o que é enviado à nuvem e sinaliza documentos com dados pessoais para aprovação.

Comitê de Gestão de Crise do Crea-SC apresenta rede de voluntários e aplicativo

O presidente do Crea-SC, Kita Xavier, passou a palavra ao conselheiro regional e coordenador do Comitê de Gestão de Crise, Jackson Jarzynski, para apresentar o grupo criado após as chuvas de 2023 em Santa Catarina. Segundo Kita, a iniciativa deu ao Regional maior visibilidade junto à sociedade.

Jackson contou que o comitê nasceu durante uma Sessão Plenária, quando o estado estava em colapso. “Nós, como pessoas, precisamos ajudar o nosso próximo, mas o conhecimento técnico de engenharia só cabe a nós”, disse. Desde então, profissionais voluntários atuaram também no Rio Grande do Sul e no Paraná. Em Rio Bonito do Iguaçu (PR), onde 92% da cidade foi destruída, a engenharia produziu 2.517 relatórios de destruição em 36 horas. “As pessoas só receberiam verbas do governo municipal, estadual e federal após o relatório do Crea”, explicou.

Jackson Crea-SC
Coordenador do Comitê de Gestão de Crise do Crea-SC, Jackson Jarzynski

Para organizar os voluntários, o Crea-SC desenvolve um aplicativo, hoje na terceira de dez fases. O sistema localiza em tempo real os profissionais próximos ao evento e dispara uma convocação ao celular. “Se nós precisarmos de mais profissionais, nós simplesmente expandimos o raio”, afirmou. O relatório inicial segue o Cobrade, a classificação brasileira de desastres, e recebe uma pontuação. Quando necessário, o Comitê, formado por dois especialistas indicados por cada Câmara, aciona um profissional habilitado para emitir o laudo, com a ART gerada pelo próprio aplicativo.

O trabalho se apoia em convênio com a Defesa Civil e em dados do próprio Sistema. Com as ARTs, o Regional georreferenciou os poços artesianos do estado. “Em um evento de crise, nós só precisamos do georreferenciamento do poço artesiano”, disse Jackson. Em outro caso, um profissional foi levado de helicóptero a uma barragem crítica. “A decisão é técnica porque envolve vidas da sociedade”, ouviu do governo estadual, segundo o coordenador.

Agora, o comitê passa a atuar também na valorização profissional. A Defesa Civil enviou nota técnica aos 295 municípios catarinenses para esclarecer que o decreto de emergência, em vigor até março, acelera processos, mas não dispensa a responsabilidade técnica. O Crea-SC recebeu o mapa georreferenciado das obras para orientar a fiscalização. O Crea-MT já agendou visita para conhecer o modelo, e os Creas do Paraná e do Rio Grande do Sul estão alinhados. “O importante é saber que o Crea está entregando algo diretamente à sociedade no seu momento mais crítico”, concluiu.

O presidente do Crea-RJ, Miguel Alvarenga, destacou o uso da ART como ferramenta de rastreabilidade. “A gente tem a maior ferramenta do mundo e está usando muito pouco”, afirmou. Os trabalhos do Colégio de Presidentes seguem nesta sexta-feira (30), em Florianópolis.

Beatriz Leal e Fernanda Pimentel
Equipe de Comunicação do Confea
Fotos: Sto Rei/Confea